terça-feira, 16 de agosto de 2011

O rato motivado: uma análise operante

Suponhamos que um jovem leigo de corpo escultural e que tem um nome bastante peculiar (chamaremos ele de Taimon hehe) esteja observando dois ratinhos, cada um recém colocado em uma câmara experimental. O cientista que lida com os ratinhos explica ao leigo que o rato da câmara A (carinhosamente apelidado de "Adolfo") esta sem comer à dois dias (estranho esse carinho hein!). Bom, de qualquer forma, Adolfo encontra-se privado de comida a dois dias. Mas ao lado da câmara onde se encontra Adolfo há outro ratinho, o ratinho da câmara B (carinhosamente apelidado de "Bruno"), e que também esta privado de comida à dois dias.


Taimon, nosso leigo, observa que o ratinho Adolfo (o ratinho A) vai em direção a extremidade esquerda da caixa experimental e lá pressiona uma pequena alavanca. Ao fazê-lo, uma pelota de alimento é liberada por uma pequena abertura na câmara. O ratinho então novamente pressiona a alavanca e não obtém uma nova pelota. E lá segue o ratinho em mais três, quatro, cinco e seis tentativas sem obter qualquer conseqüência. O ratinho então "desiste" de tentar.

O cientista agora mostra ao leigo o ratinho Bruno (o rato da câmara B). O rato segue até a alavanca de sua câmara (comportamento semelhante ao de Adolfo) e a pressiona, obtendo como conseqüência uma pequena pelota de alimento. Bruno pressiona a barra novamente, mas dessa vez nenhum alimento se segue, ele então tenta novamente, e outra, e outra, e outra vez... Então 25 tentativas se seguem e Bruno parece não desistir. Ao invés disso ele pressiona com grande freqüência a alavanca e dentro de algum tempo somam-se 60 tentativas. Mas Bruno não parece esmorecer diante de tais tentativas e assim segue "determinadamente" pressionando a alavanca. Transcorrido algum tempo somam-se 90 tentativas e Taimon, que observa Bruno, já esta pasmo, torcendo pelo nosso ratinho, mas ao mesmo tempo triste pois ele não obtém a tão "desejada" "recompensa" alimentar. O ratinho chega então a 100ª tentativa e uma pelota de alimento cai da pequena abertura. Ufa! Bruno rapidamente segura a pelota de alimento, comendo-a rapidamente. Nosso ratinho para por um instante, e em seguida lá segue ele pressionando a barra de novo, e de novo, e de novo...

O cientista que lida com os ratinhos olha para Taimon e lhe pergunta o que ele pensa dos comportamentos dos dois ratinhos. Taimon rapidamente nos diz: Ora, é óbvio, Bruno é muito "motivado", o Adolfo coitado não tem "motivação" que lhe faça perseverar no comportamento de pressionar a alavanca.

É então que o cientista liga um televisor próximo a Taimon e lhe mostra um vídeo de Adolfo e Bruno gravados semanas atrás (a história experimental dos ratinhos). No vídeo de Adolfo, a situação se assemelha ao seu comportamento atual. Adolfo puxa a alavanca e obtém alimento uma vez. Suas tentativas subsequentes não obtém recompensa alimentar (reforço), e dentro de 6 ou 7 tentativas ele para de responder (de se comportar pressionando a alavanca).

O vídeo de Bruno, porém, é peculiar. Ele inicia com o ratinho pressionando a alavanca e recebendo alimento a cada tentativa, durante 5 tentativas. Então, Bruno segue pressionando a alavanca, mas dessa vez não obtém alimento nas suas próximas 4 tentativas. Na 5ª tentativa Bruno obtém o alimento, e assim segue pressionando a barra, e recebe mais uma pelota de alimento a cada 5 tentativas. Transcorrido um tempo o ratinho segue pressionando a barra e só recebe alimento a cada 10 tentativas, e é mantido nesse padrão de recebimento de alimento por mais algumas tentativas (1 reforço a cada 10 respostas de pressionar a barra). O cientista vai exigindo do ratinho cada vez mais tentativas para receber o alimento. Com o passar do tempo o padrão aumenta para 20 respostas de pressionar a barra para obter um único pedaço de comida, em seguida segue para 30, e depois para 40, 60, 80 e finalmente para incriveis 100 respostas para obter um único pedaço de alimento.
Taimon agora entende o mistério por trás da motivação de nosso ratinho... Ou seria melhor dizer, a real explicação por trás de seu comportamento motivado.


Ok, ok. Agora indo para a parte séria. O que o exemplo dos ratinhos pode nos ensinar?
Taimon, nosso leigo, inicialmente disse que Bruno é motivado e que essa é a causa de seus comportamentos de pressionar a barra inúmeras vezes. Entretanto, ao atentarmos para a história experimental de Bruno, percebemos que ele foi gradualmente colocado sob um esquema de reforço (padrão de recebimento de reforço para seu comportamento de pressionar a barra) diferente do esquema de Adolfo. Ou seja, apesar do ambiente semelhante, as contingências de reforço aos quais os ratinhos estão expostos são diferentes. Essa intervenção experimental consistiu em espaçar gradualmente o reforço alimentar contingente a um número específico de comportamentos do rato. Ao término do experimento percebemos que o rato responde de forma freqüênte e consistente a alavanca da câmara experimental. Há casos relatados de animais que exibiram mais de 10.000 respostas em situações como essa. Isso que é motivação! Mas espere! Que motivação? A motivação que antes estava por trás do comportamento não pode mais ser utilizada para explicá-lo, pois as reais variáveis responsáveis pelo comportamento de pressionar freqüentemente a alavanca são explicadas pelo espaçamento do reforço alimentar contingente a resposta de pressionar a alavanca emitida pelo ratinho (diz-se que essas variáveis controlam o comportamento do rato). Adolfo, nosso ratinho A, por outro lado, foi reforçado de maneira diferente, de modo que o reforço não era apresentado contingente a resposta terminal após um número freqüente e crescente de respostas de pressionar a barra, explicando assim suas poucas tentativas. Em termos comportamentais, podemos dizer que o comportamento de pressionar a barra exibido por Adolfo foi extinto (pois não recebeu mais reforços suficientes para mantê-lo).

O termo "motivação", não podendo mais ser usado para explicar o comportamento do ratinho Bruno, passa então a ter sua utilização melhor compreendida. Ele é um termo descritivo para o comportamento do ratinho, ou seja, o comportamento de pressionar freqüentemente a alavanca, obtendo um único pedaço de alimento após X tentativas. A motivação é o próprio comportamento. Mas parece que ao invés disso buscamos um evento interior (metafísico/psíquico ou mesmo fisiológico) que explique seu comportamento. A cultura na qual estamos inseridos nos ensinou a refletir as questões referentes ao comportamento, sobretudo, o comportamento de seres humanos de modo a buscar um mundo suplementar que explique os fenômenos comportamentais.
No exemplo de Bruno, dizer que ele pressiona a barra porque é motivado é uma tautologia, uma vez que essa informação é inferida do próprio comportamento e, portanto, não pode explicá-lo. Seria semelhante a dizer que Pedrinho é agressivo porque bate muito nos colegas de aula. Ora, se a agressividade é a descrição do comportamento de bater, como seria sua causa? Parece bobagem, mas nossa cultura freqüentemente nos direciona a tais explicações, e com diversas orientações da Psicologia não é diferente. Costuma-se dizer que o indivíduo que idolatra a si mesmo é assim pois é narcisista, mas o narcisismo não é uma coisa que habita o sujeito. novamente é a descrição de seu comportamento. Dessa forma transformamos verbos em substantivos (objetos/coisas) para explicar o comportamento, p. ex.: o "amar" se transforma no "amor", o "pensar" se transforma no "pensamento" ou na "mente" e o "sentir" em "sentimentos". A linguagem da cultura ocidental é permeada de expressões mentalistas que direcionam nossa atenção para coisas ao invés de ações e para a busca de causas internas e espontâneas que dão a noção de livre-arbítrio para os comportamentos humanos (uma espécie de homúnculo interno, um self).

Retornando a motivação, seria o comportamento de seres humanos sujeitos as mesmas variáveis naturais que explicam o comportamento dos ratinhos? Uma criança que estuda com afinco esta sujeita a inúmeras variáveis que lhe fazem estudar "motivadamente". Talvez receba reforços sociais, ou do próprio conteúdo escolar, mas essa é uma questão para um outro post...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O modelo comportamental na análise do TOC




Em Análise do Comportamento (AC) ambiente é tudo aquilo capaz de afetar o organismo.
Já o comportamento não é expressão visível de um outro fenômeno subjacente e inacessível, como os "processos mentais" ou "energias psíquicas". É ação do organismo e pode ser da esfera privada (pensamentos, lembranças, sentimentos, emoções, etc.) ou pública, isto é, acessível a outras pessoas (ações motoras como conversar, praticar esportes, tocar um instrumento, etc.).
Comportamento segue as leis naturais e a Análise do Comportamento (AC) nesse sentido estaria mais próxima de áreas como a biologia do que da maioria das orientações teóricas da Psicologia, que normalmente fazem uma distinção entre eventos mentais e materiais.
O comportamento é a interação entre o organismo e o ambiente. É um continuum, dividido apenas para fins de análise. Fala-se de resposta quando descreve-se uma ação do organismo (fazer birra, pensar em um poema, sentir ansiedade, etc.) e de comportamento quando, o contextualizamos em uma relação denominada "contingencial".
Um exemplo do exposto, seria ao averiguamos que um uma criança só faz birra para sua mãe no ambiente do supermercado, conseguindo assim obter os doces que tanto queria. Nesse caso estamos falando em comportamento de fazer "birra".
Segue a representação esquemática da atual contingência responsável pela emissão do comportamento de fazer birra no supermercado (lembrando que as contingências que o estabeleceram anteriormente podem ter sido diferentes):

No supermercado e na presença da mãe (Sd), o comportamento de fazer birra (R) tem grande probabilidade de ser reforçado com doces (C).

Pode-se sintetizar a relação funcional (nesse caso, uma contingência de 3 termos) assim:


Sd --> R --> C


"Sd" são as iniciais de "estímulo discriminativo" e serve para definir o contexto no qual uma dada resposta (comportamento) é emitido. Já o "R" denota a "resposta" e o "C" denota a "consequência", no caso do exemplo citado acima, um "reforço positivo" (R+).

Poderíamos então, traduzir da seguinte forma:


Sd --> R --> R+


ANÁLISE COMPORTAMENTAL APLICADA NO TOC

Pensar em contaminação (eventos privado) e lavar as mãos (evento público) são comportamentos operantes. Um não causa o outro.
Não se pode mudar comportamentos diretamente, mas sim alterar as contingências de reforço dos quais eles são função. Sendo assim, a variável independente (fator de causa) é o procedimento que elimina ou altera o altera o primeiro elo do encadeamento (nesse caso, pensamento de contaminação) o que causa a alteração dos elos seguintes.
Sendo assim, o foco de análise não é centrado nas "crenças" (regras e autoregras) do paciente: "Eu tocar em um objeto não significa que me contaminei", mas no procedimento que produziu tal mudança. Tanto o é, que algumas vezes é possível eliminar o "pensamento" (evento privado) de contaminação, mas não os rituais de limpeza (podendo ocorrer o inverso: muda-se o comportamento compulsivo e o pensamento obsessivo de contaminação perdura).
Algumas vezes basta alterar um elo, que ao perder a função de Sd ou S pré-aversivo (S= estímulo) interromperá uma cadeia comportamental ou dará origem a uma nova cadeia de respostas e que, pode ser mais adequada. Ex.: mudando um pensamento aversivo de contaminação, o encadeamento que inclui a ansiedade e a compulsão de de lavar as mãos (o que eliminará o efeito da contaminação) também muda. Algumas vezes, outros procedimentos serão necessários. Seguem os procedimentos existentes:

1) Descrever para o cliente as contingências de reforço que deram origem à auto-regra. Se o cliente constatar que emite o comportamento que foi aprendido sob contingências que não descrevem os eventos reais, poderão ser eliminados e substituídos por outros comportamentos apropriados, desde que sejam alteradas, na direção apropriada, as contingÊncias de reforçamento em operação;

2) Proceder a orientação familiar, visando reorganizar as contingências de reforçamento sociais que vêm mantendo e reforçando diferencialmente os padrões comportamentais indesejados. substituindo-as por contingências de reforço contingentes a comportamentos desejados;

3) Impedir o cliente de emitir o comportamento de fuga-esquiva supersticioso de tal forma que passe a discriminar que a moléstia não ocorre, mesmo não tendo se "descontaminado". Inicialmente desencadeia-se forte ansiedade, mas com a constatação de que nada aconteceu, o CS pré-aversivo (objeto que contamina) perde a função aversiva.

4) Aumentar o contato do cliente com as condições de contaminação. Esta técnica deve ser associada com a anterior, de modo a acelerar o processo. Trata-se de extinção operante e de extinção respondente.

5)Procedimento de reforçamento positivo de comportamentos incompatíveis com comportamentos de fuga-esquiva. Instalar comportamentos de "contaminar-se" e consequenciá-los com eventos reforçadores para o cliente (ex.: atenção e elogio, que são reforçadores sociais generalizados positivos para a maioria dos indivíduos).

6) Procedimento de reforçamento positivo diferencial de quaisquer outros comportamentos, exceto os indesejados (DRO). Ex.: instalar outros comportamentos que produzem reforços positivos sociais e não sociais, arbitrários e naturais, objetivando ampliar o repertório de comportamentos do cliente.


Referências

sábado, 21 de maio de 2011

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